sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Questões fracturantes de fraco interesse

Em primeiro lugar Bom Ano a todos. Que tenham tido umas boas festas e que a roupa ainda vos sirva depois de terem passado os vossos dias a “montar guarda” à mesa de jantar (eu pelo menos estou com algumas dificuldades)…
Quanto ao tema que aqui me traz, vai para cerca de um mês que se iniciou o “interessante”, e aparentemente “fracturante”, tema dos casamentos homossexuais. É sempre bonito ver políticos abespinhados com as ideias dos seus opositores de bancada, mas ate que ponto é que faz sentido todo este alarido? Quem for seguindo a actualidade politica com alguma regularidade ficará certamente com a ideia de que não há temas mais importantes para debater, tal é o absurdo tempo de antena prestado a este assunto… Não estou com isto a tirar a devida importância à questão, acho que é importante e que deve ser resolvida (os mais atentos terão reparado que usei a expressão resolvida em vez de debatida). Mas chamar a isto um tema fracturante e merecedor de tantas horas de discussão vazia parece-me absurdo!
Entrarei agora na minha visão pessoal da coisa (atenção aos mais sensíveis, em especial se forem de algum partido cristão). Quando duas pessoas se casam para quem é que isso é fracturante? Tirando as próprias, familiares/amigos (mais abelhudos entenda-se) e alguma terceira pessoa que ficou com o coração despedaçado (ou "dor de cotovelo"), não é fracturante para ninguém! Confesso que não sou sensível ao casamento, parece-me desnecessário e aparentemente mau negócio, mas respeito quem quer casar (quem de nós não se meteu já em avisados maus lençóis com um sorriso nos lábios?) e digo isto quer o casal seja heterossexual ou homossexual.

Agora que já afastei tudo quanto é democrata cristão continuarei com a minha dissertação (único propósito de criar aqui um parágrafo, para além da questão estética).
No meio das muitas intervenções de deputados, ouvi uma particularmente macabra (foi do deputado Carlos Peixoto da bancada laranja) que disse, e passo a citar: “Se estamos a admitir o casamento entre pessoas do mesmo sexo, então também podemos admitir, pelo mesmo princípio, casamentos entre pais e filhos, entre primos direitos e irmãos”. Penso que foi com sorte que este amor de pessoa não comparou o casamento homossexual ao “bestialismo” e à necrofilia. Enfim, nada como um ultra-conservador para dizer disparates amiúde mas sempre com um ar composto!   
Outras vozes se levantam também contra o casamento homossexual. Aparentemente há até uma associação que conseguiu juntar uma mão cheia de maduros que colectaram cerca de 90 mil assinaturas de pessoas que se gostam de meter na vida alheia (ironicamente esta associação exige um referendo, ferramenta da democracia, para impor uma limitação muito pouco democrática… Tapem os ouvidos aos militantes do PNR porque senão o próximo pedido de referendo vai continuar nesta linha algo fascista). A desculpa mais cómica é que a legalização do casamento gay é uma forma de desvirtuar os valores das famílias, pessoalmente diria que mal vai a família que perde os seus valores com base em acções de outros que ainda por cima não implicam com a sua vida…
Alguns, pseudoliberais, dizem-se a favor de uma união de facto “desde que não lhes chamem casamento”! Temos portanto a tese de “casamento” como palavra reservada. Isso não é sensivelmente o mesmo que dizer que as mulheres têm o direito à opinião mas “por favor não chamem a isso voto”? Ou, “aqui ninguém é racista, mas quem não for branco não deve ser considerado uma pessoa, chamem-lhes outra coisa qualquer(!)”?
Então e que tal deixarem-se de “mariquices” (termo bastante apropriado neste contexto) e meterem-se nas suas vidas? Com tantos problemas que o país enfrenta parece-me absurdo a quantidade de tempo desperdiçada neste assunto!
No seguimento deste tema há outro ponto muito interessante, a adopção por casais homossexuais. Será que devo prosseguir com a minha linha de pensamento? Enfim, tenho de desabafar… Desde “respeitáveis” deputados até aos mais ilustres desconhecidos em qualquer mesa de café, já todos ouvimos as mais diversas teses sobre este assunto. Já ouvi coisas escandalosas, desde referencias à suposta promiscuidade intrínseca da comunidade gay até aos impactos que uma situação de adopção deste género pode causar no desenvolvimento das crianças (parece que o problema está nos miúdos gozarem uns com os outros).
A primeira alegação parece-me patética. Haverá casais homossexuais promíscuos e com as suas taras, é certo, bem como também os há em casais heterossexuais (espantem-se senhores do CDS). Logicamente que não é qualquer um que pode adoptar uma criança, é preciso que o casal seja devidamente avaliado por um técnico de acção social que assegure que há condições para o bom desenvolvimento da mesma.
No que diz respeito à "gozação" de que as crianças serão vitimas... Enfim, palavras para quê? As crianças são seres particularmente cruéis e horríveis umas com as outras (meninas em particular, deixem-se de lamechices e observem os vossos “anõezinhos” no recreio da escola), quem não se lembra de no seu tempo de infância haver sempre uma mão cheia de desgraçados que eram gozados porque eram gordos ou tinham óculos (embora não tenha conhecido ninguém que soubesse estar entregue a uma instituição, certamente que as crianças também haveriam de gozar com isso)?
Por ultimo, aos que nem pensam antes de dizer que é fundamental uma criança crescer com uma figura de pai e uma figura de mãe, lembrem-se de que a criança que é posta para adopção não tem nem um nem outro... Foi vitima (e não venham com a famigerada historia da “vontade de Deus”) de uma concepção de um casal heterossexual, que, por opção ou por força das circunstancias relegam a criança a instituições.
Por uma vez, deveria-se por até o interesse das crianças em primeiro lugar e pensar no que seria melhor para elas! Será melhor serem acolhidas por alguém que as deseje e as ame, dando-lhes todas as condições para crescerem de forma sadia? Ou será que o desenvolvimento da criança deverá estar unicamente a cargo do estado, por vezes em condições dúbias e em falta de um carinho de alguém que possa ser reconhecido como pai e mãe (vá, não peguem nesta frase para distorcer tudo o que disse até agora) para satisfazer os preconceitos da sociedade?

Pois é verdade, em tempos de crise perde-se tempo com questões que nem deveriam ser questões... Tende-se a misturar todo um conjunto de preconceitos e crenças religiosas para justificar algo que não tem justificação e em nomes de valores no mínimo duvidosos.
A quem ler este post espero que possa reflectir nesta opinião, e se possível dê o seu contributo com um comentário.

Um grande bem haja,
GN

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

A verdade da mentira

Bom, antes de prosseguir devo dizer que este titulo não se refere à longa metragem protagonizada pelo agora Governador da Califórnia Arnold Schwarzenegger nem do polémico livro que acusa o casal McCann de assassinarem a sua filha. Posto isto claramente só sobra uma possibilidade, a EDP, mais concretamente no que se refere às barragens que vão ser construidas. Quantos de vocês adivinharam do que se tratava o titulo? Possivelmente nenhum...

Pois é, quem convive comigo já conhece de letra esta revolta. É daquelas coisas que me tira do sério e com o qual eu torro a paciência de quem me rodeia. Vou então exorcizar publicamente esta questão que tanto me atormenta.

Na passada sexta feira fui ao cinema (vejam bem há quanto tempo isto anda a marinar), o titulo não é importante, era uma comédia ligeira. O importante é a publicidade que antecede actualmente os filmes da Lusomundo (não sei se nos outros também é igual) e que é a mesma que invadiu os nossos lares de uma forma perfeitamente ostensiva por alturas do verão. Estou logicamente a falar da bonita publicidade que a EDP criou para "evangelizar" o mundo com a mensagem de que as barragens ajudam na preservação da natureza.

A publicidade em si é brilhante, tenho de tirar o chapéu aos publicitários que a criaram. As imagens são fantásticas, suaves e inspiradoras. A musica assenta-lhe que nem uma luva e a mensagem de preservação parece natural e convincente (estou desconfiado de que ate a Greenpeace foi obrigada a rever toda a sua percepção sobre a preservação, Deus e o Universo para por as ideias em ordem). Para ajudar a este arraial de disparates temos também a TSF (sim, estou a falar de uma estação de rádio noticiosa e com um carácter credível). Quem, como eu, ouve a TSF com regularidade já ouviu pelo menos os anúncios (penso que já cessaram) de um programa aos Sábados que visa explicar ao grande publico a grande vantagem que é termos barragens em tudo quanto é rio para preservarmos a biodiversidade. Sou só eu que acho isto estranho? Devo dizer que nunca ouvi o programa em si, apenas os anúncios ao mesmo, mas pareceu-me profundamente obsceno e mesmo desonesto fazer uma coisa dessas!

Para reflectir melhor sobre este assunto, vou tentar criar tópicos sobre o problema em questão que põe frente a frente a preservação e a construção de uma qualquer barragem.

  1. As barragens produzem uma energia “limpa” que para além do mais nos ajuda a criar uma independência energética
  2. Segundo estudos da UE a produção energética será apenas 30% do que foi prevista nos estudos da EDP
  3. Criação de habitats para espécies em vias de extinção participando assim numa preservação activa da natureza
  4. Enfim, é quase ridículo contrapor o ponto anterior, é praticamente "bater no ceguinho". Diria que a melhor forma de preservar um habitat é (espantem-se) ficar quieto e não estragar o que a natureza criou…
  5. As barragens alagam os melhores terrenos, aqueles que durante séculos estiveram à beira rio e a receber tudo de bom ficam agora submersos. Estamos a falar dos solos mais ricos não só para o desenvolvimento da natureza selvagem mas também para a agricultura e que ficam assim submersos.
  6. Põem em causa a biodiversidade já que condicionam o curso dos rios e alteram as condições por estes proporcionadas. Há peixes que não podem subir os rios para a desova (sim aqueles mesmos que aparecem no anuncio) o que trás implicações também com a fauna predatória (as lontras e as águias que também aparecem na publicidade ficam assim ameaçadas) e claro, toda a flora subaquática sofre graves alterações, tudo isto tanto a montante como a jusante dos ditos empreendimentos.
  7. A poluição gerada pela construção de uma barragem é também ela imensurável. Começando pelo impacto gerado com a agitação das lamas do fundo dos rios toda a tarefa se demonstra extremamente nefasta para o desenvolvimento de animais e plantas.
  8. O "desenvolvimento económico". Isto merece uma referencia ao meu post anterior, mas mais uma vez, meus amigos o betão só por si não traz qualquer desenvolvimento. Neste caso em particular fala-se muito do desenvolvimento das regiões próximas das barragens com a proliferação de novos empregos que exploram comercialmente as condições criadas pela mesma (em especial em termos turísticos). Pergunta: alguém alguma vez viu uma das actuais barragens trazer grande desenvolvimento às áreas envolventes com o dito turismo pelas actividades aquáticas? Eu nunca vi, e se tudo correr bem nunca verei... Não tenho interesse nenhum em ter centenas de banhistas e embarcações de recreio a conspurcar a agua que vou beber!
  9. O armazenamento de águas. Enfim, lá vamos nós... Tendo em conta que boa parte dos nossos rios são partilhados com Espanha, o nosso problema costuma cingir-se ao facto dos "nuestros hermanos" nos fecharem as torneiras de cada vez que vem mais uma seca... Por outro lado armazenar aguas paradas não é grande ideia (baixos caudais têm implicações graves na qualidade das águas) e a própria UE veio dizer que a EDP tinha feito mal as contas aos caudais previstos para as barragens. Leia-se "temos mais um atentado entre mãos".
  10. Por ultimo, há quem pague e bem por um turismo de qualidade que necessita de uma natureza relativamente preservada em vez de profundamente adulterada.

Então porque continua a ser apregoado o maná que seria a construção de barragens? Porque há valentes dinheiros públicos aqui no meio, e em investimentos de largos milhões haverá certamente muita gente a ficar contente (que possivelmente ficará conhecida em mais algum caso judicial mediático que termina em nada). Por triste que seja, quando há dinheiro envolvido, vale tudo. Vale até uma publicidade verdadeiramente milionária para fazer a lavagem cerebral necessária para se seguir em frente com este atentado e vale a compra de um programa para impregnar toda a propaganda da construção civil. Ninguém quer saber se vamos adulterar o ultimo rio selvagem da Europa, ninguém quer saber do desaproveitamento económico que se vai fazer com inundar de terrenos férteis nem tão pouco do turismo bem pago que se poderia explorar num país bem conservado, e claro, ninguém quer saber das espécies já tão ameaçadas e que em muitos casos vão ser extintas com mais esta agressão aos seus habitats.

Pois é verdade, o titulo de país desenvolvido tem mesmo de ser revisto... Betão não é desenvolvimento e a construção cega não trás qualquer riqueza. Um país desenvolvido pensa no seu potencial natural, pensa no futuro e pensa que o seu desenvolvimento tem de ser sustentável! Não podemos continuar como qualquer país de 3º mundo, com um desenvolvimento atabalhoado e não vendo mais do que o dinheiro fácil sem pensar se amanhã ainda teremos proveito do que fizemos hoje e que impacto se espera das nossas acções.

Um grande bem haja,
GN

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

O betão resolve!

Ora aqui está um começo pouco auspicioso... Quando se compara o Estado Português ao Sporting já se sabe que o resultado é inquestionavelmente desastroso (é ver a classificação da 1ª Liga e, para os mais cépticos, esperar pelos resultados do défice e da evolução económica).

A crise mundial não é novidade, já tem mais de um ano e já todos estamos cansados de ouvir falar nela. Mas em abono da verdade, acho que na sua maioria os portugueses ainda não a interiorizaram. Não é que não achem que estamos em crise, simplesmente não parece é diferente da crise em que andamos vai para muitos anos.

Desde que me lembro por gente que se fala em crise (excepto no tempo das vacas gordas do Eng. António Guterres que andou a gastar por conta), estamos sempre em situação critica, sempre à beira de sofrer sanções da UE e as palavras "apertar o cinto" e "o país está de tanga" têm lugar cativo na boca dos nossos governantes. E em todos esses momentos a estratégia foi a mesma: "vamos estimular a economia com uma sucessão absurda de obras publicas"! Ok, admito que há 15 anos atrás de facto haveria muita obra para ser feita, e agora, de tempos a tempos há grandes obras que são úteis e fazem sentido para o desenvolvimento do país, então e as outras? Bom, as outras não sei...
Quando pensamos em 3 auto-estradas para o norte em que muitos dos troços são em paralelo, que sentido é que elas fazem? Ainda me lembro quando essa pergunta foi colocada ao ex-ministro Mário Lino pelo humorista Ricardo Araújo Pereira e a resposta foi claramente o mais cómico: "então uma pessoa fica com a possibilidade de escolher uma via ou escolher outra!" (ainda pensei que Mário Lino fosse soltar uma gargalhada demonstrando que tinha um excelente sentido de humor e depois fosse dar uma explicação convincente, esperei, mas nada aconteceu...). Ou seja, a resposta dos nossos governantes para o combate às crises é espalhar alcatrão pelo país em obras de utilidade questionável... Mais curioso, após 15 anos a abusar da mesma estratégia sem que esta surta qualquer efeito, ninguém pensou: "espera lá, se calhar esta não é a medida mais acertada...". Em vez disso, cada vez que a crise se agrava, lá vem mais um dos nossos iluminados "papaguear" a inovadora medida que é o reforço do investimento nas obras públicas (leia-se auto-estradas e pontes de utilidade duvidosa, nada de hospitais, escolas e pavilhões desportivos que só dão despesas e o povo não precisa disso).
Supostamente a receita é simples, conclui-se que quanto mais vias tivermos do sitio A para o sitio B, mais a nossa economia é estimulada (pelo menos entre o sitio A e B claro está). Eu não sou economista, mas diria que essa evolução não é linear, e após um X numero de alternativas para o percurso, já não se acrescenta nada ao desenvolvimento. Outra coisa que se gosta muito de espalhar é a "boa nova" da criação de emprego, e como se regozijam os Eleitos com a noticia da criação de "milhares" de empregos(?) na criação de uma nova auto-estrada... Isto parece tolo (pelo menos quando se pensa nessa afirmação) mas a verdade é que vai pegando! Ora vamos lá juntar as cabeças e reflectir nessa ultima premissa (recordo que não conheço os meandros da construção de uma auto-estrada, mas acho que podemos fazer este exercício todos juntos). Idealmente uma auto-estrada deveria iniciar-se com um estudo sobre a sua utilidade (vá, nada de começar rir, estamos a falar de coisas sérias), teremos aqui imensos funcionários públicos a estudar arduamente os melhores percursos que vão conseguir dividir aldeias e atravessar estrategicamente os terrenos extremamente valiosos de personalidades com peso na vida politica e/ou económica e que terão de ser devidamente ressarcidos (é necessária alguma arte para acertar em todos, por isso é de louvar este trabalho). De seguida teremos os estudos de impacto ambiental (este é optativo e quando imposto pela UE ou para calar alguma organização ambientalista tende a ser feito depois da obra concluída, ou, na pior das hipóteses, quando a decisão já foi tomada e não há volta a dar), aqui se calhar empregam-se uma mão cheia de especialistas que constatam pouco mais do que o obvio, até porque ninguém lhes paga para dizer que aquela obra é um atentado. Finalmente as construtoras, estamos a falar do que verdadeiramente interessa e daquilo que, na visão do estado, é o motor da nossa economia! Ora, mais uma vez a "falar de letra" diria que não se faz a obra toda em paralelo, na melhor das hipóteses vão-se fazendo uns troços. Mas enfim, vamos então admitir que temos aqui os "milhares" de empregos criados pelo Estado através das obras publicas. A análise agora passa para o plano talvez mais interessante: quem emprega e por quanto tempo? Ainda na semana passada surgiu um estudo do centro de emprego que divulgava a falta de candidatos para as ofertas na construção civil, logo, as obras criadas acabarão por ser efectuadas à custa (na sua essência) de mão de obra estrangeira (muita dela ilegal) e por um tempo muito limitado (uma auto-estrada não leva uma eternidade na sua construção e para quem lá trabalha é sempre um trabalho temporário). Por ultimo, não esquecer que os dinheiros públicos (ao contrário do que muitos acreditam) não nascem do nada e "não são de ninguém". Os dinheiros públicos "nascem" dos nossos impostos, tudo o que é feito pelo estado vem dos nossos dinheiros. Cada auto-estrada que nasce são menos escolas ou infantários que temos (que ajudariam os pais a ter alguma paz quanto à educação dos seus filhos e poderem render mais nos seus trabalhos), são menos hospitais e centros de saúde que estão disponíveis (que impedem a desertificação do interior e poupam o dinheiro das famílias nos serviços privados por não existirem serviços públicos decentes), são menos piscinas e pavilhões que se criam e que dão acesso a uma população cada vez mais sedentária de fazer exercício de uma forma acessível (em vez de estarmos limitados a ginásios dispendiosos que depois por vezes o estado comparticipa em vez de investir), são menos policias e bombeiros cada um dos quais com menos qualificações e materiais disponíveis do que deveríamos ter.

Pois é verdade, não há dinheiro para tudo! Será que o melhor é continuar cegamente a espalhar betão pelo país? Esta é uma politica que não só limita os actuais investimentos como os investimentos futuros e não só de uma forma contabilística! Onde espalhamos alcatrão não podemos explorar o potencial natural da nossa terra, onde gastamos dinheiro não temos o que gastar em politicas de fundo e nas reformas necessárias para que o nosso país possa superar as actuais e as futuras adversidades de um sistema económico mundial. Até lá temos e teremos um "país de tanga" em que a moral ainda vai sendo aguentada pelo fado, Fátima e o futebol...

Um grande bem haja,
GN

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Adeus Oprah…

Já não era sem tempo, finalmente, após 25 anos o seu programa chega ao fim! Claro que nem tudo são rosas e tal como os Delfins parece que a excelentíssima Oprah Winfrey quer regressar um ano depois numa outra estação televisiva. É pena…
Sei que por esta altura, as eventuais donas de casa que se tenham deparado com este post me estão a rogar pragas, mas sinceramente, entre ver a Oprah e a Júlia Pinheiro (ou quem quer que faça programas do mesmo género) não há qualquer diferença. O modelo é incrivelmente básico: temos o tema social que perturba a apresentadora (que por vezes se perturba demasiado com coisas de pouquíssima importância), o famoso (ou medianamente famoso) que vai lá falar da sua vida de forma muito pessoal (se possível à volta de um tema trágico) e por ultimo mas não menos importante, uma mão cheia de ilustres desconhecidos que vão expor a sua vida privada e chorar que nem umas “Madalenas arrependidas” durante o resto do tempo que dura aquele inferno… Assim se faz um programa vencedor que tornou aquela querida senhora na mulher mais influente do mundo (é preciso ter sorte).
Sim, também sei que vou ser rotulado de insensível, até mesmo de ignorante porque quem vê o programa atentamente diz que por lá se aprende muito (?) mas e que tal um programa a sério? Se é conhecimento que buscam vejam um dos muitos canais Discovery, Odisseia, National Geographic ou História. Se buscam informação e tragédia real têm uma vasta lista de programas de informação (para os mais desatentos, há canais que nem fazem outra coisa senão darem noticias durante todo o dia, onde os dramas são abordados de uma forma séria em vez de “hormonal”, fantástico não é?). E claro se querem “novela”, enfim, é mudarem para SIC ou TVI a partir de meio da tarde e caso não calhem num bloco publicitário terão a vosso favor mais de 80% de hipóteses de darem de caras com uma das muitas novelas nacionais ou brasileiras…

Pois é verdade, agastam-me esse tipo de programas que apenas alternam entre a coscuvilhice e a exploração da tragédia humana. Acho bizarra a necessidade que tanta gente tem de se imiscuir na vida alheia. Não digo que os problemas dos nossos pares não devam ser levados em consideração, muito pelo contrário, o que não me parece nada digno é explorar as suas tragédias por questões de audiências onde tudo é transmitido com um dramatismo falso! Sejamos verdadeiros, as historias da senhora que foi despedida, que tem todos os problemas de saúde que se podem imaginar, em que o marido a traiu e a filha fugiu de casa com um toxicodependente, por mais triste que seja (e é) ninguém se vai lembrar dela dois dias depois… Ou seja, durante uma hora é rir de coisas sem interesse e chorar lágrimas de crocodilo.
Vamos lá mas é ver coisas a sério, que nos dêem conhecimento, divirtam  ou façam pensar e esperar que a Oprah se reforme ao fim de um quarto de século de maus programas.

Um grande bem haja,
GN

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Chocolate Contradanças

Já tenho a vossa atenção? O titulo foi nesse sentido pelo menos. Prosseguindo…

O caso “face oculta” andava a passar-me ao lado. Já estou um bocado saturado de “casos” que aparecem com todo o mediatismo e depois dão em nada porque inexplicavelmente morrem sempre nos tribunais. No entanto, ao saber que este “doce de pessoa” estava indiciada mudei logo a minha postura e percebi que tinha de me inteirar da situação, e em boa hora o fiz! Apesar de repetitiva é sempre cómico ver este tipo de fenómenos a serem divulgados pela comunicação social. A primeira parte é sempre um pouco monótona, há senhores que revelam as noticias, carregadas de dramatismo, levam a publico os malvados que se andam a aproveitar dos dinheiros do povo. Até aqui raramente há algo de novo a apontar, eventualmente vão diferindo os esquemas que levam ao saque e os montantes em causa (tipicamente os montantes são tão elevados que mais milhão menos milhão já soa tudo ao mesmo), mas acho pouco interessante, é como não ver um jogo de futebol para depois andar a ver tudo quanto é resumo e comentário – apenas interessa aos mais tecnicistas. Eu cá gosto mesmo é do jogo em si! Gosto do chorrilho de disparates que se dizem, rio-me com as desculpas esfarrapadas e insulto aos árbitros quando estes dizem “Alto! Usar escutas já é batota!”. Isto sim faz vibrar, isto é espectáculo, isto é… Portugal no seu melhor.

Antes de qualquer dissertação da minha parte tenho uma sugestão: a criação de um manual de escutas para a PJ! Certamente que os senhores do outrora “Novo Mundo” já terão criado algo do tipo “Surveillance for dummies – phone tapping for complete idiots” (o qual carinhosamente traduzo para: “vigilância para totós – escutas telefónicas para perfeitos idiotas”).
Sim, sei que neste caso até estou a ser algo injusto, mas em abono da verdade acho que nunca vi nenhuma escutas com o mínimo de relevância a não serem anuladas. Há sempre qualquer coisa que as anula e tipicamente é sempre um pedido ou um impresso que não entrou a tempo e horas no tribunal para que as mesmas possam ser utilizadas.
Neste caso a coisa torna-se bem mais sórdida. Foram autorizadas as escutas a Armando Vara que terá tido conversas telefónicas com José Sócrates. Como o Primeiro-Ministro aparece em conversas, aparentemente pouco recomendáveis já que foram pedidas certidões das escutas resultantes, agora pede-se a nulidade das mesmas. Ora, o pedido de escutas foi feito para Armando Vara, logo, que sentido faz anular as mesmas só porque aparece o Primeiro-Ministro? Aparentemente o PS achou que isso fazia extremo sentido, daí ter aproveitado a legislatura passada para aprovar uma lei que impede que escutas que “envolvam” o Primeiro-Ministro, o Presidente da Republica ou o Presidente da Assembleia sejam utilizadas sem a prévia aprovação do Supremo Tribunal de Justiça. De resto bem se vê a preocupação de José Sócrates quando publicamente questiona há quanto tempo anda a ser escutado e se isso é legal. Segundo ele próprio, essas e que são as questões que ele quer ver respondidas!

Pois é verdade, continuamos a viver num país de barões, onde o factor “C” vale mais do que qualquer outro. Mantemo-nos  na nossa vidinha, indiferentes à falta de vergonha dos nossos governantes e da generalidade dos agentes de poder. Longe vai o tempo em que quando saia um escândalo deste calibre o acusado se desfazia em justificações (desculpas não pagam dividas e justificações de pouco ou nada adiantam, mas pelo menos havia um mínimo de vergonha por parte dos participantes). Agora passam logo ao ataque, viram a mesa e acusam-se as autoridades judiciais de atentarem ao seu bom nome! Gritam justiça (?) e mesmo depois de se saber os conteúdos das escutas (Apito Dourado por exemplo) ou de o tribunal os condenar à prisão com pena suspensa (o inesquecível caso Fátima Felgueiras) vêm para a porta dos tribunais dizer que justiça foi feita e que como se provou, não só estão inocentes (?), como são pessoas de bom nome, sérias e honradas como não há outras!
Caríssimos, se ponderam incorrer em actos de legalidade duvidosa avaliem bem a vossa condição. Uma coisa é certa, se não forem suficientemente ricos e influentes ou se não forem suficientemente miseráveis e atacarem em bandos, é certo e sabido que vão estar atolados em algum processo judicial que pode terminar bastante mal para a vossa parte, caso contrário, parece que o crime compensa...

Um grande bem haja,
GN

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Um dia nos transportes de Lisboa

“Coisas que me aborrecem”, esta seria outra hipótese para o titulo deste post. Como já estão a adivinhar a coisa hoje não correu pelo melhor. A bem da verdade, esta está longe de ser a 1ª vez.
Para quem não sabe, há umas semanas comecei a ir para o meu local de trabalho pela muito anunciada via dos transportes públicos. As publicidades são fantásticas, apregoam os transportes públicos como sendo algo que funciona, e há uns meses até o Presidente da Câmara de Lisboa, António Costa, deu ares de sua graça com uma dita corrida sem grande interesse entre uma bicicleta, um Porsche e o metro. A verdade porém é algo duvidosa, não sempre é claro, mas estou aqui para relatar o absurdo que é o meu percurso diário.

Começo então por descrever o percurso feito. Todos os dias apanho o comboio na estação de Carcavelos, saio em Alcântara-Mar e dirijo-me a pé para Alcântara-Terra. Por algum motivo (relativo a questões de  insegurança, assumo eu) retiraram o percurso coberto que ligava as duas estações. Para quem não conhece, as duas estações não estão propriamente próximas uma da outra e o percurso é bastante desabrigado pelo que se adivinha um Inverno animado. A ajudar à festa o cruzamento mais próximo de Alcântara-Terra é, na melhor das hipóteses, demoníaco e um verdadeiro teste à sobrevivência… Por ultimo apanho o comboio de Alcântara até Moscavide. No final do dia, como seria de esperar, o percurso é exactamente o inverso e foi no regresso que mais uma vez a coisa deu para o torto.

Tudo começou ainda no trabalho (claro que aqui não vou apontar o dedo à CP) em que depois de um dia até bastante pacifico houve pedidos de ultima hora. Faço o que posso para tratar do assunto e aí vou eu para a estação de Moscavide, assim que lá chego constato o que já suspeitava, perdi o comboio das 18h25 por 2 minutos. Aqui sim começo a desejar mal aos senhores que tratam dos horários da linha em causa, é que o próximo comboio que pára em Alcântara-Terra só passa às 18h55 (sim, mesmo em hora de ponta o comboio tem uma periodicidade de 30 minutos, coisa que dá imenso jeito). Ainda estou eu a recalcular os tempos de chegada a casa e oiço logo a malfadada voz mecânica que avisa atrasos de 10 minutos na linha… A estação de Moscavide é bastante manhosa, tal como quase todas as que servem o percurso que eu faço, portanto resolvi apanhar no primeiro comboio que apareceu de forma a ficar em Entrecampos e assim diminuir as chances de ser abordado por algum meliante que me alivie dos parcos pertences que transporto. Ao fim de mais de 10 minutos de atraso lá aparece o comboio para Alcântara-Terra. Saio da ultima estação, passo pelo dito cruzamento onde testo novamente as leis de Darwin(até à data posso dizer que tenho tido um sucesso notável em não ter apanhado com um carro em cima) e sigo para Alcântara-Mar o mais depressa que posso. Chego lá e claro, ainda vou a tempo de ver o comboio de São Pedro partir… Mais uma vez apanho o primeiro comboio que me aparece à frente, que era o de Cascais (não para em Carcavelos). Saio em Oeiras, espero que venha o comboio de Oeiras (não me enganei a escrever, há mesmo um comboio cujo destino final é Oeiras) e finalmente lá vem um comboio que para em Carcavelos. Chego ao meu destino às 20h07 (1h40 de percurso) e constato que já não consigo ir aos planeados treinos de Aikido. Ricos transportes, penso eu…

Pois é verdade, sem dúvida que se poupa dinheiro e é inquestionável que se preserva o ambiente, mas que tal fazerem uma rede de transportes a sério? É que cobrar a entrada de carros na cidade (ideia muito em voga  nas autarquicas) é muito fácil, criticar que leva transporte próprio está ao alcance de qualquer um, mas então e alternativas interessantes? O que é feito de transportes públicos que realmente funcionem, que não se atrasem e que tenham uma regularidade aceitável? Parece-me no mínimo patético que não exista uma ligação entre as duas estações de Alcântara, pior ainda o facto de não haver sitio onde atravessar no ultimo cruzamento(não quero nem pensar na quantidade de atropelamentos que de certeza já ali se deram) e por ultimo, o lastimável estado das estações (para além da degradação, boa parte delas não têm nem um posto da CP, apenas uma máquina de venda de bilhetes).
Por hoje fico-me por aqui, era apenas um desabafo.

Um grande bem haja,
GN

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Quando o biológico não é o melhor…

Ora cá estamos mais uma vez após uma pausa de quase duas semanas. Não foi por falte de noticias, felizmente essas nunca escasseiam, mas nem mesmo aquele circo que foi armado pelo mui ilustre Mário David (desconhecido até então mas cuja situação até lhe rendeu uma página no wikipedia) me despertou especial interesse para iniciar mais uma entrada neste meu cantinho.

Ao contrário do que o meu titulo possa sugerir, não vou falar de transgénicos, latifúndios ou da sobre exploração de galináceos através da utilização de luzes artificiais… Venho então mostrar a minha indignação pela repetida escolha por parte dos nossos tribunais em julgar a favor das famílias biológicas, como se o sangue falasse mais alto do que a razão. Muitos já não  se devem lembrar (eu pelo menos já me tinha esquecido) do caso Alexandra, mas de vez em quando a comunicação social até demonstra alguma competência.

Para quem não sabe do que estou a falar (talvez por só agora ter renunciado ao eremitismo) faço um pequeno apanhado. A história é incrivelmente simples, uma mulher de nacionalidade russa, que tinha hábitos duvidosos (de entre os quais o abuso de bebidas alcoólicas e de dar mais do que umas “palmadas pedagógicas” na filha), foi auxiliada por um casal português. Às páginas tantas deu a sua descendência à dita família que criou a menina como sua filha. Após uns anos nessa situação (a menina nem sequer falava russo), a mãe lembrou-se que afinal queria levar a filha para a sua terra natal, recorreu aos tribunais, e sem qualquer espanto a “justiça” deu toda a razão à mãe biológica (quem não se lembra do caso Esmeralda e de um outro que terminou tragicamente na morte da criança?). Tivemos portanto mais uma decisão judicial que não protegeu a criança (que é quem precisa de protecção). Passados poucos dias, numa chocante reportagem vê-se em primeira mão a mãe a abusar da menina agredindo-a violentamente e de forma injustificada (só espero que essas imagens tenham ficado bem cravadas na mente de quem deliberou o envio da Alexandra para o terror em que se tornou a sua vida). Agora (vi hoje a reportagem na RTP) a situação tomou tais proporções que são as próprias autoridades russas (que antes vieram também em defesa da mãe) que ponderam retirar a criança a Natália Zarubina (mãe), embora, ironicamente, avancem com a impossibilidade de a devolverem aos pais adoptivos uma vez que dizem não ter confiança num estado que envia uma criança para uma mãe bêbada e abusadora como Natália.

Pondo de parte os conflitos diplomáticos e os falsos moralismos, quem é que pode concordar com decisões judiciais deste calibre? Quem é que no seu perfeito juízo e de consciência tranquila pode tirar a guarda da criança, de uma família que mesmo com dificuldades a acolhe e a trata como verdadeira filha e a manda para o inferno que é a vida com uma mãe alcoólica e abusadora? Entristecem-me estas situações, fazem-me pensar que estamos num país retrógrado que se recusa a encarar as situações de frente…

Pois é verdade, quem me conhece sabe que não sou pessoa que goste de crianças, essencialmente afligem-me, mas revolta-me profundamente esta sociedade de falsas morais. Revolta-me a sociedade que se esconde por trás de frases feitas e sem significado como “as crianças são a alegria do mundo” ou “as crianças são o futuro”. Elas não são nem uma coisa nem outra. Elas são o fruto das nossas acções, muitas das vezes acções egoístas, irreflectidas ou acidentais. São seres que vieram ao mundo por nossa causa, por isso é bom a que as respeitemos e que como sociedade possamos proporcionar-lhes um futuro e não as condenemos à tortura e à miséria. É imperativa uma mudança de atitude, não para que as crianças sejam o futuro, mas para que possam ter um futuro.

Um grande bem haja,
GN