sábado, 5 de junho de 2010

E quem não salta quer educação!

Mas Portugal salta...
Ora boas, regressei mais cedo do que esperava. Confesso que só me via a escrever aqui uma nova entrada na próxima semana, com alguma observação sobre o estado de alienação dos portugueses graças ao campeonato do mundo de futebol (como se fosse preciso uma desculpa para nos alienarmos da vida cívica)... No entanto hoje ao ver as noticias da hora de almoço pensei: "será que esta gente perdeu o pouco juízo que tinha?".

O noticiário trouxe novas interessantes. Duas delas foram apresentadas pela ministra da educação. Uma referente ao fecho de mais de 500 escolas primária e a outra dizia respeito à ideia peregrina de passarem automaticamente para o 10º ano os alunos do 8º que tenham já mais de 15 anos. Por ultimo, o noticiário deu-me também a entender uma coisa trágica, a nossa verdadeira preocupação nacional é: "será que podemos contar com o Nani e o Beto para a África do Sul?".

O fecho de mais de 500 escolas primárias é preocupante a meu ver. Mais uma vez estamos a seguir uma lógica economicista e particularmente cega quanto à nossa realidade. O critério não podia ser mais básico, se tem menos de 20 alunos, fecha. Então e o que se vai fazer a esses 20 alunos?
Há anos que se fala no combate à desertificação. Dinheiros públicos têm sido gastos, por vezes mesmo esbanjados, em infra-estruturas que alegadamente dão  melhor qualidade de vida a quem vive no interior e impede assim a contínua migração para o litoral (nomeadamente Lisboa e Porto). A pergunta que se impõe, para mim que sou lisboeta e que me tento por na pele de quem vive no interior de Portugal, é então, o que me faria escolher (ou não) o interior em relação a uma grande cidade?
Tipicamente os governos têm optado pelo tipo de medidas "para inglês ver", ou seja, betão. Constrói-se uma auto-estrada sem portagens (que já se viu que não é sustentável) e assume-se que está tudo bem no paraíso. Entretanto aparecem este tipo de medidas de fecho de escolas, centros de saúde, e todo o tipo de instituições sociais que fazem particular sentido nas povoações mais isoladas. Claro que sei que não é possível ter uma escola em todas as ruas nem um centro de saúde para cada "meia dúzia" de pessoas, mas este tipo de medidas avulso são apenas formas de gastar onde não se deve, poupar no que faz falta, e no fim, não definir qualquer rumo para o futuro.

O ponto dois da ministra é a triste ideia de se fazer uma passagem directa do 8º para o 10º para os meninos com mais de 15 anos. A desculpa não podia ser melhor e baseia-se em ser "uma situação muito difícil para o aluno" e em "não poder desmotivar os alunos sob pena deles abandonarem as instituições". Vá, vamos lá falar sério, estão os nossos governantes a trabalhar a favor ou contra o país?
As reformas da nossa educação têm sido verdadeiramente anedóticas. A obrigatoriedade do ensino de 12 anos, a quase impossibilidade de se chumbar um aluno, os programas das novas oportunidades, e agora isto... Quando se fala em problemas estruturais em Portugal, é isto que eu vejo. Problemas estruturais não se corrigem em 3 anos, nem numa legislatura ou mesmo duas. Problemas estruturais corrigem-se em décadas de trabalho e este é o melhor dos casos de exemplo. Quem está hoje a receber educação será o eleitor e o governante de amanhã. Como podemos esperar alguma coisa dessa geração que não teve objectivos a cumprir? É uma geração a quem se está a dar habilitações que não têm e a quem se está a dizer que não precisam de estudar nem de lutar para terem direito ao que quer que seja. Mais, a nossa, actualmente péssima, competitividade só tem a perder com isso. Como podemos nós competir no estrangeiro quando a nossa exigência interna é tão miserável?
Mesmo tecnicamente faz-me confusão como é que a ministra da educação, ela própria uma professora, pode achar que faz algum sentido um aluno saltar assim dois anos nessas condições. São anos fundamentais para a formação académica de qualquer estudante! Como é que um aluno que não tem vontade ou capacidade para terminar o 8º ano vai passar do 10º? Só mesmo criando mais uma excepção que diga que aos 18 anos ficam todos com o 12º sem nunca se terem dado ao trabalho de se esforçarem por ele. Eu nunca conheci ninguém que tenha saltado dois anos por ser genial, alias, penso mesmo que isso nem é permitido, mas vamos passar a conhecer quem salte dois anos por ser um asno ou um preguiçoso!

Pois é verdade, este post já vai longo, mas mesmo assim podia-se dizer muito mais sobre o assunto. Os erros que agora cometemos, vão ser pagos bem caros e mais cedo do que se pode pensar. Não estamos a tratar apenas que questões de literacia, já de si extremamente importantes, mas mais ainda de uma questão de valores que esses sim estão em risco quando se apresentam estes caminhos de facilitismo. Não podemos esperar que depois de 12 anos de uma escola de brincadeira, que desvirtua o principio do trabalho e do esforço, saiam de lá bons profissionais, ou sequer pessoas que percebam a necessidade de se ser um bom profissional. Certamente pensarão "mesmo que eu não seja competente, o chefe vai-me promover para não me traumatizar". Enfim, por ultimo quero deixar aqui a manchete dos telejornais, que demonstram onde estão as preocupações do povo: “Nani estará apto para a Africa do Sul”, afinal está tudo bem.

Um grande bem haja,
GN

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Contas de merceeiro, e então?

Ora boas, tudo bem divertido neste feriado? Pois bem, hoje é dia de contas. Vá, nada de desesperos, não vai ser nada de muito complicado… Então é assim, quem já se apercebeu do impacto da subida do IVA na conta de supermercado?

(O propósito deste parágrafo é unicamente esperar que 75% dos dois leitores deste post abandonarem a página…)

Eu não paro de me arrepiar de cada vez que oiço alguém a encolher os ombros e a dizer-me “não percebo este alarido só por 1% de aumento, 1% não é nada…” (nesta altura quase tenho de recorrer à mnemónica do AVC para me certificar de que ainda estou bem).
Agora que já expliquei o que me faz indignar irei proceder a meia dúzia de contas simples que ajudam a perceber o quanto é esse famigerado 1%. Devo desde já avisar que são contas literalmente de merceeiro, por isso, e se por acaso alguém versado em  “contas” daquelas evoluídas dos economistas der por estes singelos exemplos, por favor, tenha dó de mim e não me desfaça em nada…

Para efeitos de simplicidade, vamos apenas considerar os produtos que são abrangidos pela taxa mínima (apesar de todas as taxas levarem agravamento de 1%, estou apenas a fazer referencia aquela que antes era taxada a 5 e que passará então a 6%). Acrescento também que, ao contrário do que José Sócrates quis passar com o triste exemplo da Coca-Cola, a taxa mínima é aplicada aos bens essenciais (pão, carne, água e todos os produtos de que nem ricos nem pobres não podem ficar sem comprar).
Usarei então o número redondo de €10,00/dia sem imposto (em bens essenciais). Uns gastam mais, outros menos. No final e se acrescentarmos os produtos considerados não essenciais é só extrapolar as contas já que estamos a falar de valores percentuais.

Exemplo diário:

Gasto diário sem imposto €10,00
Imposto de 5% €0,50
Agravamento de 1% €0,10

Nesta altura a “meia pessoa” que ainda estava a ler o post estará certamente a insultar-me por esta perda de tempo. Passarei então à extrapolação mensal e anual:

  Mensal (30 dias) Anual (365 dias)
Sem imposto €300,00 €3650,00
Imposto de 5% €15,00 €182,50
Agravamento de 1% €3,00 €36,50

Vá, ninguém estava à espera que neste exemplo bacoco tirasse daqui milhares de euros em 1%… Mas, analisem com alguma atenção, e reparem em quanto está a ser aumentado este imposto em particular! Ah pois é, o aumento é de 20% (resolvi por logo aqui a conta porque sei que ninguém a vai fazer). Se não acreditam, vejam:

Mensal €15 + 20% (€3,00) = €18
Anual €182,50 + 20% (€36,50)= €219,00

Agora digam-me então quantos de vocês conseguem viver com €300 por mês! Boa parte das pessoas que conheço gastam, contas redondas, próximo dos €1000 mensais (faça-se €900 mensais para ser “só” triplicar o valor) e pagarão por isso mais €109,50 anuais nesta subida de 1%.
Logicamente, aqui não estou a contar com os arredondamentos feitos pelo comércio (invariavelmente para cima, como todos sabemos). Só por curiosidade, e corrijam-se se estiver errado a subida do IRS (de 1% para a maioria de nós) terá também um impacto bastante significativo nas contas familiares. Assumindo €1000 a serem taxados em IRS (já sem Segurança social e afins): €1000 X 14 (meses) = €14.000,00 anuais. 1% de €14.000,00 = €140,00 anuais de IRS a acrescer ao que já se paga .

Pois é verdade, se alguém chegou até este ponto, desde já muito obrigado! Espero que estas contas de mercearia tenham ajudado a perceber como e menos de nada, e nestes “míseros” 1%’s nos veremos aliviados de mais €249,50 anuais neste agravamento (que até acho que são contas optimistas, para além de assumirem que o “aperto do cinto” se fica por aqui). Diria que é motivo para nos deixarmos de abstencionismos e pensarmos seriamente nas pessoas a quem atribuímos a responsabilidade de governar o país. Mas essas são outras contas…

Um grande bem haja,
GN

sexta-feira, 21 de maio de 2010

A ciência da governação

Ora cá estamos mais uma vez! Meses passaram-se desde a ultima vez que aqui me manifestei, não por falta de motivos com que me indignar logicamente. Se calhar, para o tipo de assuntos que aqui trago, há até um excesso de assuntos, casos e mexericos para debater. O problema é claramente a escolha, que se dá por um de dois lados: ou é um assunto que ainda não foi suficientemente debatido (na minha maneira de ver) ou, como é o caso, já não é possível não emitir opinião.
Posto de lado este pequeno desabafo seguirei agora para a questão que aqui me traz. A nossa (des)governação.

“Portugal não é a Grécia”
”Portugal está a ser vitima de um ataque dos mercados”
”Portugal está a ser vitima de um ataque das agencias de rating”
”Portugal está…” em maus lençois… Devo desde já dizer que só concordo com a ultima frase (completada pela minha pessoa). Historicamente nós sempre fomos muito habilidosos a passar as culpas ao transeunte incauto. Aconteça o que acontecer a culpa nunca é nossa. Do estado do tempo aos mercados alguém, ou alguma coisa, tem de ficar com a responsabilidade do maus resultados que obtemos. Nunca nos passa pela cabeça assumir que cavámos a nossa própria situação, não nos preparando e/ou deliberadamente esperando pelas ajudas (que já assumimos como obrigatórias) de quem aforrou e preparou o seu futuro.

Portugal está a prestar-se à triste figura do parente pobre, e pouco inteligente, que passa a vida a engendrar esquemas e se acha um espertalhão, que vive à grande sempre fiado na mão segura dos amigos e familiares. Mas os tempos mudam e os que antes nos ajudavam hoje não estão tão disponíveis, seja por eles próprios não estarem tão bem como noutros tempos ou por simplesmente estarem fartos de ajudar quem não se ajuda!

Pergunto-me: como é que o governo tem a coragem de apontar o dedo a outros actores que não a si próprio? Num dia em que as sondagens dizem que o PS continuaria a ganhar as eleições e que Sócrates até sobe na popularidade, parece que essa questão fica respondida. Mas como? Será que os meus patrícios não vêem o mesmo que eu, ou será que sou eu que não vejo o mesmo que eles? Quando há mais de um ano as críticas à governação se foram acentuando, quando os avisos de toda a parte se foram sucedendo como pode o governo dizer que tudo isto é anormal e imprevisível? Manuela Ferreira Leite falou de um défice (Sócrates desmentiu antes das eleições e que não teve outro remédio senão admiti-lo depois), falou de um orçamente de Estado irreal (Sócrates desmentiu e depois não teve outro remédio senão criar um orçamente rectificativo), voltou a falar da crise (Sócrates desmentiu e depois não teve outro remédio senão criar o PEC), a oposição e a Europa falaram de uma crise mais profunda (Sócrates desmentiu e depois não teve outro remédio senão seguir com um plano de austeridade). Alguém vê aqui um padrão? Caso não vejam, sigam atentamente o que se vai passar com o TGV, ou o Governo volta atrás ou faz a asneira de nos enterrar com mais uma obra inútil (de notar que Sócrates está “danadinho” para ter uma grande obra publica com o seu cunho, qual ditador que tem de se afirmar para a história).

Pois é verdade, neste post, ao contrário do que costumo tentar fazer, não avancei pelo “esmiuçar” de situações concretas, mas sim pela análise geral do que se tem sucedido na nossa governação em termos de rumo e ética (ou falta dela). Demonstro aqui também a minha incapacidade de perceber as reacções do nosso povo que, quando confrontado com atitudes de índole no mínimo duvidosas, não só não pune os responsáveis como parece até manter o seu apoio… Temo por Portugal. Temo que com a nossa passividade e clubismo de voto nos vejamos  embevecidamente a ir ao fundo, de vuvuzela nos lábios.

Um grande bem haja,
GN

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Questões fracturantes de fraco interesse

Em primeiro lugar Bom Ano a todos. Que tenham tido umas boas festas e que a roupa ainda vos sirva depois de terem passado os vossos dias a “montar guarda” à mesa de jantar (eu pelo menos estou com algumas dificuldades)…
Quanto ao tema que aqui me traz, vai para cerca de um mês que se iniciou o “interessante”, e aparentemente “fracturante”, tema dos casamentos homossexuais. É sempre bonito ver políticos abespinhados com as ideias dos seus opositores de bancada, mas ate que ponto é que faz sentido todo este alarido? Quem for seguindo a actualidade politica com alguma regularidade ficará certamente com a ideia de que não há temas mais importantes para debater, tal é o absurdo tempo de antena prestado a este assunto… Não estou com isto a tirar a devida importância à questão, acho que é importante e que deve ser resolvida (os mais atentos terão reparado que usei a expressão resolvida em vez de debatida). Mas chamar a isto um tema fracturante e merecedor de tantas horas de discussão vazia parece-me absurdo!
Entrarei agora na minha visão pessoal da coisa (atenção aos mais sensíveis, em especial se forem de algum partido cristão). Quando duas pessoas se casam para quem é que isso é fracturante? Tirando as próprias, familiares/amigos (mais abelhudos entenda-se) e alguma terceira pessoa que ficou com o coração despedaçado (ou "dor de cotovelo"), não é fracturante para ninguém! Confesso que não sou sensível ao casamento, parece-me desnecessário e aparentemente mau negócio, mas respeito quem quer casar (quem de nós não se meteu já em avisados maus lençóis com um sorriso nos lábios?) e digo isto quer o casal seja heterossexual ou homossexual.

Agora que já afastei tudo quanto é democrata cristão continuarei com a minha dissertação (único propósito de criar aqui um parágrafo, para além da questão estética).
No meio das muitas intervenções de deputados, ouvi uma particularmente macabra (foi do deputado Carlos Peixoto da bancada laranja) que disse, e passo a citar: “Se estamos a admitir o casamento entre pessoas do mesmo sexo, então também podemos admitir, pelo mesmo princípio, casamentos entre pais e filhos, entre primos direitos e irmãos”. Penso que foi com sorte que este amor de pessoa não comparou o casamento homossexual ao “bestialismo” e à necrofilia. Enfim, nada como um ultra-conservador para dizer disparates amiúde mas sempre com um ar composto!   
Outras vozes se levantam também contra o casamento homossexual. Aparentemente há até uma associação que conseguiu juntar uma mão cheia de maduros que colectaram cerca de 90 mil assinaturas de pessoas que se gostam de meter na vida alheia (ironicamente esta associação exige um referendo, ferramenta da democracia, para impor uma limitação muito pouco democrática… Tapem os ouvidos aos militantes do PNR porque senão o próximo pedido de referendo vai continuar nesta linha algo fascista). A desculpa mais cómica é que a legalização do casamento gay é uma forma de desvirtuar os valores das famílias, pessoalmente diria que mal vai a família que perde os seus valores com base em acções de outros que ainda por cima não implicam com a sua vida…
Alguns, pseudoliberais, dizem-se a favor de uma união de facto “desde que não lhes chamem casamento”! Temos portanto a tese de “casamento” como palavra reservada. Isso não é sensivelmente o mesmo que dizer que as mulheres têm o direito à opinião mas “por favor não chamem a isso voto”? Ou, “aqui ninguém é racista, mas quem não for branco não deve ser considerado uma pessoa, chamem-lhes outra coisa qualquer(!)”?
Então e que tal deixarem-se de “mariquices” (termo bastante apropriado neste contexto) e meterem-se nas suas vidas? Com tantos problemas que o país enfrenta parece-me absurdo a quantidade de tempo desperdiçada neste assunto!
No seguimento deste tema há outro ponto muito interessante, a adopção por casais homossexuais. Será que devo prosseguir com a minha linha de pensamento? Enfim, tenho de desabafar… Desde “respeitáveis” deputados até aos mais ilustres desconhecidos em qualquer mesa de café, já todos ouvimos as mais diversas teses sobre este assunto. Já ouvi coisas escandalosas, desde referencias à suposta promiscuidade intrínseca da comunidade gay até aos impactos que uma situação de adopção deste género pode causar no desenvolvimento das crianças (parece que o problema está nos miúdos gozarem uns com os outros).
A primeira alegação parece-me patética. Haverá casais homossexuais promíscuos e com as suas taras, é certo, bem como também os há em casais heterossexuais (espantem-se senhores do CDS). Logicamente que não é qualquer um que pode adoptar uma criança, é preciso que o casal seja devidamente avaliado por um técnico de acção social que assegure que há condições para o bom desenvolvimento da mesma.
No que diz respeito à "gozação" de que as crianças serão vitimas... Enfim, palavras para quê? As crianças são seres particularmente cruéis e horríveis umas com as outras (meninas em particular, deixem-se de lamechices e observem os vossos “anõezinhos” no recreio da escola), quem não se lembra de no seu tempo de infância haver sempre uma mão cheia de desgraçados que eram gozados porque eram gordos ou tinham óculos (embora não tenha conhecido ninguém que soubesse estar entregue a uma instituição, certamente que as crianças também haveriam de gozar com isso)?
Por ultimo, aos que nem pensam antes de dizer que é fundamental uma criança crescer com uma figura de pai e uma figura de mãe, lembrem-se de que a criança que é posta para adopção não tem nem um nem outro... Foi vitima (e não venham com a famigerada historia da “vontade de Deus”) de uma concepção de um casal heterossexual, que, por opção ou por força das circunstancias relegam a criança a instituições.
Por uma vez, deveria-se por até o interesse das crianças em primeiro lugar e pensar no que seria melhor para elas! Será melhor serem acolhidas por alguém que as deseje e as ame, dando-lhes todas as condições para crescerem de forma sadia? Ou será que o desenvolvimento da criança deverá estar unicamente a cargo do estado, por vezes em condições dúbias e em falta de um carinho de alguém que possa ser reconhecido como pai e mãe (vá, não peguem nesta frase para distorcer tudo o que disse até agora) para satisfazer os preconceitos da sociedade?

Pois é verdade, em tempos de crise perde-se tempo com questões que nem deveriam ser questões... Tende-se a misturar todo um conjunto de preconceitos e crenças religiosas para justificar algo que não tem justificação e em nomes de valores no mínimo duvidosos.
A quem ler este post espero que possa reflectir nesta opinião, e se possível dê o seu contributo com um comentário.

Um grande bem haja,
GN

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

A verdade da mentira

Bom, antes de prosseguir devo dizer que este titulo não se refere à longa metragem protagonizada pelo agora Governador da Califórnia Arnold Schwarzenegger nem do polémico livro que acusa o casal McCann de assassinarem a sua filha. Posto isto claramente só sobra uma possibilidade, a EDP, mais concretamente no que se refere às barragens que vão ser construidas. Quantos de vocês adivinharam do que se tratava o titulo? Possivelmente nenhum...

Pois é, quem convive comigo já conhece de letra esta revolta. É daquelas coisas que me tira do sério e com o qual eu torro a paciência de quem me rodeia. Vou então exorcizar publicamente esta questão que tanto me atormenta.

Na passada sexta feira fui ao cinema (vejam bem há quanto tempo isto anda a marinar), o titulo não é importante, era uma comédia ligeira. O importante é a publicidade que antecede actualmente os filmes da Lusomundo (não sei se nos outros também é igual) e que é a mesma que invadiu os nossos lares de uma forma perfeitamente ostensiva por alturas do verão. Estou logicamente a falar da bonita publicidade que a EDP criou para "evangelizar" o mundo com a mensagem de que as barragens ajudam na preservação da natureza.

A publicidade em si é brilhante, tenho de tirar o chapéu aos publicitários que a criaram. As imagens são fantásticas, suaves e inspiradoras. A musica assenta-lhe que nem uma luva e a mensagem de preservação parece natural e convincente (estou desconfiado de que ate a Greenpeace foi obrigada a rever toda a sua percepção sobre a preservação, Deus e o Universo para por as ideias em ordem). Para ajudar a este arraial de disparates temos também a TSF (sim, estou a falar de uma estação de rádio noticiosa e com um carácter credível). Quem, como eu, ouve a TSF com regularidade já ouviu pelo menos os anúncios (penso que já cessaram) de um programa aos Sábados que visa explicar ao grande publico a grande vantagem que é termos barragens em tudo quanto é rio para preservarmos a biodiversidade. Sou só eu que acho isto estranho? Devo dizer que nunca ouvi o programa em si, apenas os anúncios ao mesmo, mas pareceu-me profundamente obsceno e mesmo desonesto fazer uma coisa dessas!

Para reflectir melhor sobre este assunto, vou tentar criar tópicos sobre o problema em questão que põe frente a frente a preservação e a construção de uma qualquer barragem.

  1. As barragens produzem uma energia “limpa” que para além do mais nos ajuda a criar uma independência energética
  2. Segundo estudos da UE a produção energética será apenas 30% do que foi prevista nos estudos da EDP
  3. Criação de habitats para espécies em vias de extinção participando assim numa preservação activa da natureza
  4. Enfim, é quase ridículo contrapor o ponto anterior, é praticamente "bater no ceguinho". Diria que a melhor forma de preservar um habitat é (espantem-se) ficar quieto e não estragar o que a natureza criou…
  5. As barragens alagam os melhores terrenos, aqueles que durante séculos estiveram à beira rio e a receber tudo de bom ficam agora submersos. Estamos a falar dos solos mais ricos não só para o desenvolvimento da natureza selvagem mas também para a agricultura e que ficam assim submersos.
  6. Põem em causa a biodiversidade já que condicionam o curso dos rios e alteram as condições por estes proporcionadas. Há peixes que não podem subir os rios para a desova (sim aqueles mesmos que aparecem no anuncio) o que trás implicações também com a fauna predatória (as lontras e as águias que também aparecem na publicidade ficam assim ameaçadas) e claro, toda a flora subaquática sofre graves alterações, tudo isto tanto a montante como a jusante dos ditos empreendimentos.
  7. A poluição gerada pela construção de uma barragem é também ela imensurável. Começando pelo impacto gerado com a agitação das lamas do fundo dos rios toda a tarefa se demonstra extremamente nefasta para o desenvolvimento de animais e plantas.
  8. O "desenvolvimento económico". Isto merece uma referencia ao meu post anterior, mas mais uma vez, meus amigos o betão só por si não traz qualquer desenvolvimento. Neste caso em particular fala-se muito do desenvolvimento das regiões próximas das barragens com a proliferação de novos empregos que exploram comercialmente as condições criadas pela mesma (em especial em termos turísticos). Pergunta: alguém alguma vez viu uma das actuais barragens trazer grande desenvolvimento às áreas envolventes com o dito turismo pelas actividades aquáticas? Eu nunca vi, e se tudo correr bem nunca verei... Não tenho interesse nenhum em ter centenas de banhistas e embarcações de recreio a conspurcar a agua que vou beber!
  9. O armazenamento de águas. Enfim, lá vamos nós... Tendo em conta que boa parte dos nossos rios são partilhados com Espanha, o nosso problema costuma cingir-se ao facto dos "nuestros hermanos" nos fecharem as torneiras de cada vez que vem mais uma seca... Por outro lado armazenar aguas paradas não é grande ideia (baixos caudais têm implicações graves na qualidade das águas) e a própria UE veio dizer que a EDP tinha feito mal as contas aos caudais previstos para as barragens. Leia-se "temos mais um atentado entre mãos".
  10. Por ultimo, há quem pague e bem por um turismo de qualidade que necessita de uma natureza relativamente preservada em vez de profundamente adulterada.

Então porque continua a ser apregoado o maná que seria a construção de barragens? Porque há valentes dinheiros públicos aqui no meio, e em investimentos de largos milhões haverá certamente muita gente a ficar contente (que possivelmente ficará conhecida em mais algum caso judicial mediático que termina em nada). Por triste que seja, quando há dinheiro envolvido, vale tudo. Vale até uma publicidade verdadeiramente milionária para fazer a lavagem cerebral necessária para se seguir em frente com este atentado e vale a compra de um programa para impregnar toda a propaganda da construção civil. Ninguém quer saber se vamos adulterar o ultimo rio selvagem da Europa, ninguém quer saber do desaproveitamento económico que se vai fazer com inundar de terrenos férteis nem tão pouco do turismo bem pago que se poderia explorar num país bem conservado, e claro, ninguém quer saber das espécies já tão ameaçadas e que em muitos casos vão ser extintas com mais esta agressão aos seus habitats.

Pois é verdade, o titulo de país desenvolvido tem mesmo de ser revisto... Betão não é desenvolvimento e a construção cega não trás qualquer riqueza. Um país desenvolvido pensa no seu potencial natural, pensa no futuro e pensa que o seu desenvolvimento tem de ser sustentável! Não podemos continuar como qualquer país de 3º mundo, com um desenvolvimento atabalhoado e não vendo mais do que o dinheiro fácil sem pensar se amanhã ainda teremos proveito do que fizemos hoje e que impacto se espera das nossas acções.

Um grande bem haja,
GN

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

O betão resolve!

Ora aqui está um começo pouco auspicioso... Quando se compara o Estado Português ao Sporting já se sabe que o resultado é inquestionavelmente desastroso (é ver a classificação da 1ª Liga e, para os mais cépticos, esperar pelos resultados do défice e da evolução económica).

A crise mundial não é novidade, já tem mais de um ano e já todos estamos cansados de ouvir falar nela. Mas em abono da verdade, acho que na sua maioria os portugueses ainda não a interiorizaram. Não é que não achem que estamos em crise, simplesmente não parece é diferente da crise em que andamos vai para muitos anos.

Desde que me lembro por gente que se fala em crise (excepto no tempo das vacas gordas do Eng. António Guterres que andou a gastar por conta), estamos sempre em situação critica, sempre à beira de sofrer sanções da UE e as palavras "apertar o cinto" e "o país está de tanga" têm lugar cativo na boca dos nossos governantes. E em todos esses momentos a estratégia foi a mesma: "vamos estimular a economia com uma sucessão absurda de obras publicas"! Ok, admito que há 15 anos atrás de facto haveria muita obra para ser feita, e agora, de tempos a tempos há grandes obras que são úteis e fazem sentido para o desenvolvimento do país, então e as outras? Bom, as outras não sei...
Quando pensamos em 3 auto-estradas para o norte em que muitos dos troços são em paralelo, que sentido é que elas fazem? Ainda me lembro quando essa pergunta foi colocada ao ex-ministro Mário Lino pelo humorista Ricardo Araújo Pereira e a resposta foi claramente o mais cómico: "então uma pessoa fica com a possibilidade de escolher uma via ou escolher outra!" (ainda pensei que Mário Lino fosse soltar uma gargalhada demonstrando que tinha um excelente sentido de humor e depois fosse dar uma explicação convincente, esperei, mas nada aconteceu...). Ou seja, a resposta dos nossos governantes para o combate às crises é espalhar alcatrão pelo país em obras de utilidade questionável... Mais curioso, após 15 anos a abusar da mesma estratégia sem que esta surta qualquer efeito, ninguém pensou: "espera lá, se calhar esta não é a medida mais acertada...". Em vez disso, cada vez que a crise se agrava, lá vem mais um dos nossos iluminados "papaguear" a inovadora medida que é o reforço do investimento nas obras públicas (leia-se auto-estradas e pontes de utilidade duvidosa, nada de hospitais, escolas e pavilhões desportivos que só dão despesas e o povo não precisa disso).
Supostamente a receita é simples, conclui-se que quanto mais vias tivermos do sitio A para o sitio B, mais a nossa economia é estimulada (pelo menos entre o sitio A e B claro está). Eu não sou economista, mas diria que essa evolução não é linear, e após um X numero de alternativas para o percurso, já não se acrescenta nada ao desenvolvimento. Outra coisa que se gosta muito de espalhar é a "boa nova" da criação de emprego, e como se regozijam os Eleitos com a noticia da criação de "milhares" de empregos(?) na criação de uma nova auto-estrada... Isto parece tolo (pelo menos quando se pensa nessa afirmação) mas a verdade é que vai pegando! Ora vamos lá juntar as cabeças e reflectir nessa ultima premissa (recordo que não conheço os meandros da construção de uma auto-estrada, mas acho que podemos fazer este exercício todos juntos). Idealmente uma auto-estrada deveria iniciar-se com um estudo sobre a sua utilidade (vá, nada de começar rir, estamos a falar de coisas sérias), teremos aqui imensos funcionários públicos a estudar arduamente os melhores percursos que vão conseguir dividir aldeias e atravessar estrategicamente os terrenos extremamente valiosos de personalidades com peso na vida politica e/ou económica e que terão de ser devidamente ressarcidos (é necessária alguma arte para acertar em todos, por isso é de louvar este trabalho). De seguida teremos os estudos de impacto ambiental (este é optativo e quando imposto pela UE ou para calar alguma organização ambientalista tende a ser feito depois da obra concluída, ou, na pior das hipóteses, quando a decisão já foi tomada e não há volta a dar), aqui se calhar empregam-se uma mão cheia de especialistas que constatam pouco mais do que o obvio, até porque ninguém lhes paga para dizer que aquela obra é um atentado. Finalmente as construtoras, estamos a falar do que verdadeiramente interessa e daquilo que, na visão do estado, é o motor da nossa economia! Ora, mais uma vez a "falar de letra" diria que não se faz a obra toda em paralelo, na melhor das hipóteses vão-se fazendo uns troços. Mas enfim, vamos então admitir que temos aqui os "milhares" de empregos criados pelo Estado através das obras publicas. A análise agora passa para o plano talvez mais interessante: quem emprega e por quanto tempo? Ainda na semana passada surgiu um estudo do centro de emprego que divulgava a falta de candidatos para as ofertas na construção civil, logo, as obras criadas acabarão por ser efectuadas à custa (na sua essência) de mão de obra estrangeira (muita dela ilegal) e por um tempo muito limitado (uma auto-estrada não leva uma eternidade na sua construção e para quem lá trabalha é sempre um trabalho temporário). Por ultimo, não esquecer que os dinheiros públicos (ao contrário do que muitos acreditam) não nascem do nada e "não são de ninguém". Os dinheiros públicos "nascem" dos nossos impostos, tudo o que é feito pelo estado vem dos nossos dinheiros. Cada auto-estrada que nasce são menos escolas ou infantários que temos (que ajudariam os pais a ter alguma paz quanto à educação dos seus filhos e poderem render mais nos seus trabalhos), são menos hospitais e centros de saúde que estão disponíveis (que impedem a desertificação do interior e poupam o dinheiro das famílias nos serviços privados por não existirem serviços públicos decentes), são menos piscinas e pavilhões que se criam e que dão acesso a uma população cada vez mais sedentária de fazer exercício de uma forma acessível (em vez de estarmos limitados a ginásios dispendiosos que depois por vezes o estado comparticipa em vez de investir), são menos policias e bombeiros cada um dos quais com menos qualificações e materiais disponíveis do que deveríamos ter.

Pois é verdade, não há dinheiro para tudo! Será que o melhor é continuar cegamente a espalhar betão pelo país? Esta é uma politica que não só limita os actuais investimentos como os investimentos futuros e não só de uma forma contabilística! Onde espalhamos alcatrão não podemos explorar o potencial natural da nossa terra, onde gastamos dinheiro não temos o que gastar em politicas de fundo e nas reformas necessárias para que o nosso país possa superar as actuais e as futuras adversidades de um sistema económico mundial. Até lá temos e teremos um "país de tanga" em que a moral ainda vai sendo aguentada pelo fado, Fátima e o futebol...

Um grande bem haja,
GN

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Adeus Oprah…

Já não era sem tempo, finalmente, após 25 anos o seu programa chega ao fim! Claro que nem tudo são rosas e tal como os Delfins parece que a excelentíssima Oprah Winfrey quer regressar um ano depois numa outra estação televisiva. É pena…
Sei que por esta altura, as eventuais donas de casa que se tenham deparado com este post me estão a rogar pragas, mas sinceramente, entre ver a Oprah e a Júlia Pinheiro (ou quem quer que faça programas do mesmo género) não há qualquer diferença. O modelo é incrivelmente básico: temos o tema social que perturba a apresentadora (que por vezes se perturba demasiado com coisas de pouquíssima importância), o famoso (ou medianamente famoso) que vai lá falar da sua vida de forma muito pessoal (se possível à volta de um tema trágico) e por ultimo mas não menos importante, uma mão cheia de ilustres desconhecidos que vão expor a sua vida privada e chorar que nem umas “Madalenas arrependidas” durante o resto do tempo que dura aquele inferno… Assim se faz um programa vencedor que tornou aquela querida senhora na mulher mais influente do mundo (é preciso ter sorte).
Sim, também sei que vou ser rotulado de insensível, até mesmo de ignorante porque quem vê o programa atentamente diz que por lá se aprende muito (?) mas e que tal um programa a sério? Se é conhecimento que buscam vejam um dos muitos canais Discovery, Odisseia, National Geographic ou História. Se buscam informação e tragédia real têm uma vasta lista de programas de informação (para os mais desatentos, há canais que nem fazem outra coisa senão darem noticias durante todo o dia, onde os dramas são abordados de uma forma séria em vez de “hormonal”, fantástico não é?). E claro se querem “novela”, enfim, é mudarem para SIC ou TVI a partir de meio da tarde e caso não calhem num bloco publicitário terão a vosso favor mais de 80% de hipóteses de darem de caras com uma das muitas novelas nacionais ou brasileiras…

Pois é verdade, agastam-me esse tipo de programas que apenas alternam entre a coscuvilhice e a exploração da tragédia humana. Acho bizarra a necessidade que tanta gente tem de se imiscuir na vida alheia. Não digo que os problemas dos nossos pares não devam ser levados em consideração, muito pelo contrário, o que não me parece nada digno é explorar as suas tragédias por questões de audiências onde tudo é transmitido com um dramatismo falso! Sejamos verdadeiros, as historias da senhora que foi despedida, que tem todos os problemas de saúde que se podem imaginar, em que o marido a traiu e a filha fugiu de casa com um toxicodependente, por mais triste que seja (e é) ninguém se vai lembrar dela dois dias depois… Ou seja, durante uma hora é rir de coisas sem interesse e chorar lágrimas de crocodilo.
Vamos lá mas é ver coisas a sério, que nos dêem conhecimento, divirtam  ou façam pensar e esperar que a Oprah se reforme ao fim de um quarto de século de maus programas.

Um grande bem haja,
GN